A menina que não sabia ler

a-menina-que-nao-sabia-ler2 Julgando o livro pela capa, pensaria que é um romance, daqueles bem fofos. Falando nisso, a capa é de babar, linda demais e já ganhou até prêmio. Mas saibam vocês que a capa engana totalmente. A menina que não sabia ler, de John Harding, é muito mais sombrio do que aparenta ser.

Conheçam Florence, uma menina adorável de 12 anos, irmã de Giles, e moradora da Blithe House, um casarão de dar arrepios, sem manutenção e muito menos atenção do dono, o tio das crianças. Florence e Giles nunca viram a sombra do tio e só o conhecem por um quadro que há na casa. Quem cuida de Blithe e da criação deles é uma governanta. A mãe de Florence morreu no parto e Giles é fruto da nova união de seu pai. O casal morreu em um acidente de barco quando Florence e Giles eram muito pequenos, deixando poucas lembranças aos dois e um tutor muito desleixado.

Florence foi proibida de aprender a ler por ordem do tio, o homem ficou ferido depois que sua amada, que correu atrás dos estudos e se tornou uma mulher inteligentíssima, o largou. Para ele aquilo passou a ser um exemplo de que mulheres não devem ter esse tipo de educação. Mas Florence era tinhosa, descobriu em um dia de brincadeira qualquer com o irmão um cômodo que é o sonho de muitas pessoas.

De uma ponta a outra mede 104 passos meus com sapato, e 37 na largura. Três homens poderiam ficar de pé, um em cima do outro e mal conseguiriam tocar o teto. Cada centímetro das paredes, tirando a porta, as janelas e os assentos abaixo delas, está coberto por prateleiras de madeira, do chão até o teto, todas ocupadas inteiramente por livros. Página 14

Com uma infinidade de livros ao seu alcance – de forma muito sigilosa, é claro – Florence buscou o saber. Com a negativa da governanta em lhe ensinar a ler, ela perguntava uma letra para um criado, um som de outra para outro e aos poucos ensinou a si mesma a arte da leitura. E então um mundo inteiro se abriu diante de seus olhos.

Dessa maneira, absorvi Declínio e queda, de Gibbon, os romances de Sir Walter Scott, Jane Austen, Dickens, Trollope, George Eliot, a poesia de Longfellow, Whitman, Keats, Wordsworth e Coleridge, as histórias de Edgar Allan Poe, estavam todas lá. Mas um autor destacou-se entre todos. Shakespeare, é claro. Comecei com Romeu e Julieta, passei para as histórias e logo consumi rapidamente o resto. Chorei pelo rei Lear, fiquei com medo de Otelo e aterrorizada com MacBeth; Hamlet, simplesmente adorei. Página 17

O livro é dividido em duas partes, ambas com narração em primeira pessoa, por Florence, que na parte inicial nos carrega para o seu cotidiano, conta suas artimanhas para conseguir ler, descobre esconderijos perfeitos para os livros, os leva escondidos para ler antes de dormir. Ninguém pode saber que ela lê ou todo esse mundo mágico pode ser tirado dela. Sua única companhia é o irmão mais novo, com quem brinca para passar o tempo, isso quando não está lendo.

Sua alma se despedaça quando ele é levado para longe dela para estudar. O tempo de Florence que já era ocioso e solitário ficou ainda maior. Seu refúgio eram os livros, cada vez mais. Mas uma amizade bonita apareceu no destino da garota, Theo, da propriedade vizinha, que sofria com asma e frequentemente precisava do ar puro do interior agora a visitava todos os dias. Ele era apaixonado por ela e escrevia os versinhos mais sem graça do mundo, porém cheios de sentimento.

Aqui, no fim da primeira parte, você já está completamente apaixonada(o) por Florence, admira sua garra e força de vontade. E não espera – pelo menos eu não esperei – o baque de situações que viriam a seguir. O Livro Dois é completamente diferente do primeiro. Nos apresenta uma Florence por outro ângulo, ainda guerreira, mas, talvez, um pouco doentia. Com a volta de Giles, que foi gentilmente “devolvido” do internato, o tio contrata uma preceptora, responsável por educar o rapazinho. Mas ela priva Florence da sua amada biblioteca e deixa a garota um tanto insatisfeita com relação à educação do irmão. Em uma tarde, um terrível acidente no lago tira a vida da Srta. Whitaker, Florence que estava com ela no barco não conseguiu fazer nada  para salvá-la. E quando Florence pensou que seria apenas ela e o irmão novamente, chega a Srta. Taylor, a nova preceptora, cheia de dedos e com um baita nariz empinado. No entanto, ela ajuda a acobertar a leitura e as visitas da menina na biblioteca. Mas como nem tudo é paraíso, Florence fica atenta com o excesso de zelo que Taylor demonstra com Giles, fica certa de que a preceptora quer sequestrar seu irmão. Mas ela não pode deixar isso acontecer, pode? Numa trama com pitadas de suspense, mistério e muita agonia viajamos com Florence e sua mente – ou será que não?

A obra de John Harding prende o leitor e sua escrita faz com que a leitura tenha fluidez, apesar de se passar em 1891 não usa linguagem de difícil compreensão e é totalmente inesperado, surpreendente. Mas não merece apenas elogios. O livro também é confuso, deixa muitas pontas soltas, sem explicação. Não explica o passado dos irmãos e o motivo do tio tê-los abandonado apenas sob os cuidados dos criados. E isso fez com que ele perdesse alguns pontos.

capa original a menina que não sabia ler A capa, como disse acima, engana bastante e parece remeter apenas à primeira parte do livro, enquanto que a capa original já deixa o leitor, digamos, preparado para o que virá. Ele só não é excelente pelas falhas que citei, mas vale a leitura. Minha nota no Clube do Livro – ele foi o livro do mês de julho – foi 8,0 e a média do pessoal foi 7,64.

Beijos!

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