Estilhaça-me

Estilhaça-me _ capa.indd Atualmente o mundo literário passa por um boom de distopias, foi assim com os vampiros, os anjos, as fadas… Pode ser que a maioria das pessoas saibam o que distopia significa, mas não custa nada esclarecer, né?

Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa". As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, caem as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.

Fonte.

Então “se utopia é uma civilização ideal, a antiutopia, ou distopia, é o contrário disso”, como li no Literalmente Falando. Agora, inteirados do gênero, posso começar a falar sobre o livro que está entre os meus favoritos deste ano: Estilhaça-me, de Tahereh Mafi.

Somos alimentados de mentiras porque acreditar nelas nos torna fracos, vulneráveis, maleáveis. Dependemos de outros para nossa alimentação, saúde, sustento. Isso nos enfraquece. Cria covardes de nosso povo. Escravos. É hora de revidarmos. Página 274

Assim como houve um boom  de distopia, houve um boom de resenhas deste livro pela blogosfera. Afinal, os elogios de alguns influenciaram a leitura de outros, isso ocorreu comigo. Mas cada um é cada um, por isso quero tentar passar para vocês o que eu senti ao ler este livro. Estilhaça-me é completamente  diferente de tudo que já li, a começar pela narrativa, que faz as emoções pularem do livro. As palavras repetidas e as frases riscadas demonstram a frustração da protagonista, pude sentir exatamente o que ela sentia, pude compartilhar de seus pavores, de suas esperanças, de sua confusão e, claro, de seu amor. Algumas pessoas não conseguiram se acostumar com a forma como a autora escreveu, com essas repetições e tachados, mas eu achei a ideia excelente e me adaptei super fácil, parecia normal, eu compreendi.

Juliette é a protagonista desta história. Ela é diferente e por isso foi enclausurada em um hospital psiquiátrico – na verdade, uma prisão mesmo –, fechada para o mundo, fechada para a convivência com outros humanos. Sua única visão do lado de fora era através de duas fendas em sua cela. A vida de Juliette estava fadada ao nada.

O sol está alto hoje, cegando ao refletir nas pequenas manchas de neve que mantêm a terra congelada. Meus olhos se comprimem ao peso da luz e eu não consigo ver senão através de duas fendas, mas os raios quentes banham a minha pele como um casaco ajustado a minha forma física, como o abraço de algo maior que um ser humano. Poderia permanecer parada neste momento para sempre. Por um infinito segundo, sinto-me livre. Página 54

Então, para sua surpresa, uma pessoa é colocada na cela com ela. Ela pensa que vai morrer, ainda mais quando descobre que é com um homem que dividirá o pequeno espaço. O susto e o temor do início se transformam, ele lhe parece conhecido, não parece que vai lhe fazer mal, mas que se dará mal naquele lugar sem ela. Então ela o ajuda. Ela pensa que ele é louco por estar ali, mas ela mesma não o é e também está presa. Ela quer saber, mas não tem coragem de perguntar.

Toda a perspectiva de vida de Juliette muda quando ela e seu companheiro de cela, Adam, são retirados daquele local e levados para Warner, o chefe do Restabelecimento, movimento que comanda o mundo em desmoronamento. Sem comida, assolada por doenças e com muitos outros problemas iminentes, a população acreditou no que o Restabelecimento disse, que o caminho deles era a única maneira de consertar o que havia de errado. Mas sentem na pele que isso não é nem um pouco verdade. Com o poder que têm, eles são temidos e quase nunca enfrentados.

Dinheiro sujo está pingando das paredes, um ano de fornecimento de alimentos desperdiçados em pisos de mármore, centenas de milhares de dólares em assistência médica derramadas em mobiliários extravagantes e tapetes persas. Sinto o calor artificial emanando por saídas de ar e penso em crianças gritando por água limpa. Aperto o olhar através de lustres de cristal e escuto mães implorando por compaixão. Vejo um mundo artificial existindo em meio a uma realidade aterradora e não consigo me mover. Página 59

Retirada do local onde sobrevivia, Juliette agora vive em um local luxuoso, têm inúmeros vestidos em seu armário, água quente no chuveiro e uma cama aconchegante, sem falar na quantidade de comida, que antes era muito escassa. Tudo isso porque Warner a quer ao seu lado, ele sabe de seu poder, seu dom, que ela trata como uma maldição. O toque de Juliette é letal. Por acidente ela matou uma criança anos atrás e por conta disso foi privada de todo e qualquer contato, seus próprios pais a entregaram. Warner não a vê como um monstro, mas a admira, tem certa obsessão por ela. Para ele, ter Juliette ao lado é garantia de vitória contra os inimigos.

Warner deixa cair as roupas no chão e olha para mim quase íntimo. Tenho de engolir a repulsa que borbulha em minha boca. Seu rosto perfeito. Seu corpo perfeito. Seus olhos tão duros e belos quanto pérolas congeladas. Ele me causa repugnância. Quero que seu exterior corresponda a seu interior doente e sombrio. Quero mutilar sua ousadia com a palma da minha mão. Página 126

O mundo está insatisfeito com a liderança do Restabelecimento, movimentos rebeldes começam a ficar mais frequentes e tudo que Warner precisa é de uma arma como Juliette para garantir que essas pessoas voltem a ficar caladas. Mas ela não é assim, não mata por prazer, a morte que ocorreu por suas mãos foi um acidente. Ela não quer ser responsável pela perda de mais vidas. No meio disso tudo há Adam, um rapaz doce, a quem ela realmente conhecia e que agora toca seu coração. Há também um grupo se formando para enfrentar o Restabelecimento e Juliette pode ser uma guerreira nessa batalha. A escolha é dela: ser uma arma ou uma guerreira.

A esperança deste mundo sangra do cano de uma arma. Página 57

O enredo me prendeu de uma forma maravilhosa. Eu vibrava e me contorcia, torcia e ficava tensa com todas as situações pelas quais Juliette passava. Amei, fiquei encantada e quis eu mesma dar um abraço bem apertado em Adam. Impossível não se apaixonar por esse personagem forte, amoroso, cheio de princípios e com um coração invejável, um rapaz admirável. Cada passagem de Juliette com ele era capaz de me fazer suspirar.

Suas mãos tremem muito levemente, seus olhos estão cheios de sentimento, seu coração vibra de dor e afeto e eu quero morar aqui, em seus braços, em seus olhos, pelo resto de minha vida. Página 157

Do outro lado tem Warner, um carrasco dotado de um charme que chega a ser maldade. Não dá para odiar completamente um cara assim. Ele é mau, ele é perturbado e tem sangue frio, mas ele tem fascinação, um lado atraente ao extremo e um passado que justifica um pouco isso. Eu piriguetei legal neste livro, nem mesmo o vilão escapou.

Ele diz que só se sabe que Warner é consequência de uma criação implacável, de um desejo frio e calculado de poder. Ele odeia crianças felizes e pais felizes e suas vidas felizes. Página 143 

Sou uma leitora que gosta de se aventurar nos mais diversos  mundos, este, criado por Tahereh Mafi é incrível. Juliette se tortura o tempo todo por ser diferente, por ser amaldiçoada e sofre por não saber como tem esse “dom”. Mas ela vai descobrir que o número de pessoas como ela não é pequeno, que ela não é a única pessoa diferente neste mundo. Isso deu todo um toque de fantasia diferente de tudo que eu já li, uma nova aventura para explorar. Sem dúvidas, Estilhaça-me foi uma excelente leitura para mim. E vocês podem perceber que eu destaquei muitas frases, né? Então, para fechar, fiquem com mais uma que é sensacional.

A imaginação humana é muitas vezes desastrosa quando abandonada à própria sorte. Página 129

Ah, Estilhaça-me é o primeiro livro de uma trilogia. O segundo livro será lançado apenas no início de 2013, vou morrer de curiosidade e saudades de Adam até lá.

Beijos e uma ótima terça-feira.

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