A invenção das asas

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Comecei a leitura do livro preparada para tragédias, afinal a escravidão não poderia trazer histórias felizes e quando traz, vem rodeada de tristezas passadas. Encontrei pelo caminho muitas dessas tragédias que esperava, os negros tratados como propriedade eram castigados a torto e a direito, das formas mais impiedosas. Qualquer chance de mudança ou de luta por uma vida melhor, gerava punição e, às vezes, morte. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para finalizar a leitura. Quem me acompanha por aqui sabe que eu absorvo demais o que leio e quando as histórias são regadas de injustiças como essa, eu fico mal, chega a doer. Então, estava preparada para choro e mais tragédia no fim, porém, o que tive foi uma supresa de um indício de final feliz.

A invenção das asas é metade fictício e metade verdadeiro. Sarah Grimké existiu e sua história é lembrada por alguns, embora devesse ser por muitos. Ela nasceu na aristocracia abastada de Charleston, filha de um juiz dono de muitos escravos. Em um de seus aniversários ganhou uma escrava de presente, Hetty, e elas se deram bem. Tanto que Sarah ensinou a garota a ler, passando por cima de muitas leis. Na história real, Hetty morre não muito tempo depois, mas na história criada por Sue Monk Kidd, ela ganha uma outra versão, a parte completementar da história de Sarah.

Sarah

Sue, no fim do livro, conta o que mudou e o que não mudou na trajetória de Sarah, o que ela inventou, o que floreou. Achei muito interessante, depois de ler o livro, saber que alguns daqueles personagens realmente existiram e foram importantes. Como comentei, Hetty foi uma das mudanças de Sue, a Encrenca, seu nome de berço. O caminho dela e de Sarah andou junto desde que ela foi dada para a filha da Sinhá. E nem mesmo o tempo em que ficaram separadas foi capaz de cortar esse laço, que muitas vezes parecia invisível até mesmo para as duas.

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A trama é narrada um capítulo por Sarah e um por Encrenca, cada uma com suas dificuldades, com suas barreiras para ultrapassar. Sarah não era uma menina “normal”, ela não queria fazer o que todas as mulheres faziam ou eram obrigadas a fazer naquela época. Sempre entrou sem permissão na biblioteca do pai e seu sonho era se tornar advogada, como os irmãos. Suas discussões acaloradas com eles indicavam que ela seria bem sucedida na profissão, caso pudesse segui-la. E não pode. Sua maior frustração foi ser proibida de frequentar a biblioteca e de alimentar seu sonho.

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Encrenca, por outro lado, também era diferente. Não queria ser escrava, não queria ter aquela vida, queria voar, como aqueles antepassados seus nas histórias que sua mãe contava. Aliás, sua mamã sempre quis o melhor para ela, queria comprá-las para que pudessem viver em liberdade, queria muitas coisas que escravos não poderiam querer. A vida de Encrenca não foi fácil, mas ela não se prendia às regras. Quando queria, conseguia conquistar muitos feitos.

Escravos

Não sei bem o que posso/devo contar da história, que é contada em seis partes, começando em novembro de 1803 e terminando em junho de 1838. Então, como podem perceber, é muita coisa para comentar e não quero dar spoiler, óbvio, mas posso comentar que foi interessante ver Sarah se encontrar de novo, encontrar um norte, algo pelo qual lutar. A escravidão sempre foi algo que ela abominou, mas que pensava não poder lutar contra. Ela quebrou muitas regras, quase todas, e não desistiu, apesar dos inúmeros percalços. O mesmo para Encrenca, apesar de ter que esperar muito, receber muitas pancadas e castigos, ela finalmente pode ser o que queria.

A invenção das asas é uma história longa sobre como duas pessoas tão diferentes ficam aprisionadas também de forma diferente e fazem de tudo para arrancar as “algemas” que as prendem. Nos faz pensar sobre aquele tempo e sobre a atualidade, onde ainda vemos os negros sendo tratados de forma diferente, onde a sociedade aponta o que uma mulher pode ou não fazer, julga, espalha preconceito… Enfim, talvez, não estejamos tão mais evoluídos do que aquelas pessoas de 1800 e alguma coisa.

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Talvez por essa pegada tão real, eu tenha demorado mais para ler e não tenha me jogado tanto na leitura. Sabem, optando por não me machucar mais, já que pensei que o final seria de choradeira. Não achei ele sensacional quando terminei, embora seja importante e interessante. No entanto, escrevendo sobre ele e pensando sobre a história, ele é realmente muito bom. Achei que algumas partes foram maçantes e demoradas, no entanto, entendi depois que foram necessárias. Afinal, uma mulher que desafiou padrões, como Sarah Grimké, merecia que sua história fosse contada da melhor (e até maior) forma possível.

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*O livro foi cedido pela editora para resenha no blog.

Beijos e uma excelente quarta-feira.

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