3096 Dias

3096 Dias não pode ser considerado uma obra literária, afinal é o desabafo de uma garota que durante oito anos precisou conviver com um homem totalmente maluco, o seu sequestrador. Muitos devem lembrar e até confundir a história de Natascha Kampusch, uma menina que aos 10 anos foi sequestrada no caminho da escola e que permaneceu no cativeiro até seus 18 anos. As especulações sobre o que realmente ocorreu naquele que é um dos mais longos sequestros de que se tem notícia são inúmeras, mas neste livro conseguimos conhecer a versão da vítima, daquela que foi privada de parte de sua infância e sua adolescência.

Natascha, para uma menina de dez anos, era muito ligada no que ocorria à sua volta e já tinha as antenas alertas para os horrorosos sequestros seguidos de morte noticiados na Áustria, no entanto, tinha certeza absoluta que não fazia parte do padrão, que em sua mente era de meninas louras e magras. Ela jamais esperaria ser pega já que era baixa, gordinha e de cabelos castanhos, mas o padrão dos sequestradores era totalmente diferente do que ela imaginava. E ela só soube disso quando se tornou uma vítima.

A vida de Natascha antes do sequestro não era uma maravilha, entre outras coisas, ela enfrentava dificuldades após a separação dos pais, mas com tudo que passou aprendeu a ser forte. Um grande trunfo para sobreviver sem enlouquecer no cativeiro. E o que ela demonstrou foi muita força, principalmente para uma garotinha de apenas 10 anos.

Àquela altura, eu sabia que não podia desistir. Quem resiste sobrevive. Os mortos não podem mais se defender. Eu não queria morrer – nem mesmo interiormente – e, por essa razão, tinha de desafiá-lo. Página 97

Não consigo me imaginar no lugar dela. Sinceramente, creio que eu não aguentaria. Ser privada da luz do sol, ser obrigada a fazer as dietas que o lunático do sequestrador fazia, passar apenas comendo cenouras que eram jogadas no cativeiro. Sem falar nas surras diárias e humilhações. Ela passou por uma prova e tanto. Mas saiu vitoriosa. Mesmo após ser obrigada a esquecer quem era, sua imagem no espelho e ter contato apenas com o homem que lhe privou de tudo, ela conseguiu ter sanidade para agir na hora certa e se livrar do domínio do sequestrador.

Os romances me lançavam para um outro mundo e atraíam minha atenção de tal modo que eu esquecia durante horas onde estava. E era justamente isso o que fazia da leitura algo tão importante para minha sobrevivência. Página 85

A dor que a fome pode causar é insuportável. Ninguém pode compreender isso se acha que fome é apenas quando a barriga ronca. Página 164

É muito fácil se ligar a alguém que tira sua comida. Página 166

A leitura do livro não é difícil. Mas se teve algo que me incomodou foi o fato de a história não ser narrada em ordem cronológica. Ela começa a contar uma situação aos 12 anos e puxa algo relacionado que aconteceu aos 17 e depois volta a ter 12. E deixa tudo confuso. No entanto, é algo que podemos entender, porque são memórias e nós somos assim, não é? Quando lembramos de algo, nossa mente puxa outra coisa relacionada e assim vai. Só que ainda sou da opinião que uma edição bem feita poderia deixar tudo mais interessante.

O livro é bom, interessante e causa indignação. Primeiro por um cara ser capaz de cometer atos tão nojentos e bárbaros com uma garota, segundo pelos erros da polícia que deixou de seguir pistas conclusivas por besteiras, erros escrotos que custaram oito anos e meio da vida de Natascha, terceiro porque a prisão não ficou só no físico de Natascha, mas impregnou na mente e ela acreditava em tudo que o sequestrador falava, ele era sua única referência para tudo. E no fim, indignação com os anos e experiências perdidos por Natascha.

Às vezes era um alívio quando a dor física abafafa o tormento psicológico por alguns instantes. Página 168

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Cativeiro

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A história da austríaca deve virar filme em breve.

Este livro foi o escolhido para discussão no Clube do Livro de Tubarão no mês de março. Quer saber como foi? Clique aqui.

Beijos e ótima terça!

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