O contador de histórias

Contador de Histórias Antes de começar a escrever sobre esse filme que me conquistou, preciso confessar uma coisa: tive preconceito com ele. Sabem como é, nem sempre o cinema brasileiro produz filmes que se valha a pena ver e fiquei meio assim quando o maridão escolheu O contador de histórias. O que posso comentar após assisti-lo é: ainda bem que ele o fez.

A produção brasileira conta uma história real, de amor, linda, de confiança, com sensibilidade e de recuperação. Roberto Carlos Ramos nasceu em uma família pobre, grande e sustentada pelo trabalho da mãe. Uma mãe que viu em uma propaganda da Febem a chance de seu filho ter um futuro promissor, de ser um doutor. A propaganda, veiculada em uma TV praticamente comunitária de onde viviam, divulgava que a instituição visava a formação de crianças em médicos, advogados e engenheiros. O sonho de uma mãe com condições precárias. Aos 6 anos, Roberto Carlos foi o escolhido por ela para ter a chance desse futuro.

contador3 Imaginem a dor que é para uma mãe que realmente ama o filho, deixá-lo nesse lugar estranho para ser criado por pessoas estranhas. Ela foi tão corajosa. O problema é que a propaganda não passava a realidade vivida dentro da Febem dos anos 70 – muito menos a de hoje. Roberto teve que se virar, ser malandro, principalmente após completar 7 anos, quando foi transferido para a ala com meninos de 7 a 14 anos. Para ser bom, um tanto respeitado, tinha que falar muito palavrão e essa foi uma das cenas que me renderam gargalhadas. Roberto e um amiguinho sentados e falando um palavrão mais cabeludo que o outro, até que ele inventa o “Puta que la merda”, que segundo o amiguinho, é legal. E depois aparece em uma cena de arrepiar.

Roberto não entende o motivo de a mãe tê-lo deixado ali e a acusa durante uma visita, que ela tenta não perder, mas no fim, a passagem de ônibus é muito cara, de que ela não a quer mais. Ele é criança, não consegue compreender que ela acha que fez certo. E depois disso ele desanda. Aos 13 anos, ainda analfabeto – super no caminho de se tornar médico -, Roberto começa a usar drogas e a colecionar fugas da Febem, foram bem mais de 100. E durante o período que ficava na rua, entre outras coisas, ele roubava. Com esse histórico, Roberto foi considerado um garoto irrecuperável pela instituição.

contador2 Mas então, uma pessoa muito especial cruza o caminho dele, a psicóloga francesa Margherit Duvas. Ela não acredita que alguém seja irrecuperável e quer mudar a vida de Roberto - “Robertô”. Obviamente que, até que ela consiga alguma resposta dele, demora. Ele é um garoto machucado, acha que foi abandonado e que não pode confiar em ninguém. No entanto, Margherit e sua insistência benevolente mostram para ele que o amor pode mudar uma vida considerada irreparável.

Gente, o filme é nada menos que sensacional. A história de Roberto e Margherit é inspiradora, dá esperanças e é linda. Roberto aprende francês, aprende a respeitar as pessoas e a amar e ser amado. Sem falar na confiança. Cada situação vivida por eles e mostrada no filme é um aprendizado, gera uma emoção diferente. Mostra que o caminho geralmente não é fácil, quase nunca é, mas que com perseverança podemos chegar a um lugar realmente recompensador.

contador1 Hoje Roberto Carlos é um dos maiores contadores de histórias do Brasil, senão o maior, e um dos dez maiores do mundo. Formou-se em pedagogia, especializou-se em criar e contar histórias. O mais novo de dez irmãos é pai de 13 meninos adotados. Chego a me arrepiar.

contador4 Para finalizar, reitero, o filme é emocionante e vale super a pena ser conferido. Uma obra incrível! Tão bom que assisti duas vezes no mesmo dia.

Curiosidades

  • Marco Antonio Ribeiro, Paulinho Mendes e Cleiton Santos, intérpretes de Roberto Carlos Ramos, foram escolhidos entre mais de 500 candidatos selecionados em escolas e projetos sociais de Minas Gerais.
  • As filmagens ocorreram ao longo de 9 semanas, sendo que três dias foram em Portugal e o restante entre as cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Paulínia.
  • Para retratar a cidade de Belo Horizonte em plenos anos 70 foi necessário apagar a modernização de locais como a Praça Rui Barbosa, as ruas Sapucaí e Caeté e o Viaduto Santa Teresa. Entre as modificações feitas estão a retirada de lixeiras modernas, placas de sinalização e pontos de ônibus.
  • A cena do banho do personagem Roberto Carlos Ramos em uma das fontes da Praça Rui Barbosa envolveu 112 figurantes, o aluguel de 30 carros da época e ainda uma equipe de 60 pessoas.

Adoro Cinema

Beijos e uma ótima quarta-feira!

P.S.: O Contador de Histórias e Matemática do Amor ficaram empatados na enquete, então, semana que vem eu comento sobre o segundo.

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